Prêmio Talentos do Brasil - Revista Contigo!


Queridos amigos,

recebi nesta semana a notícia de que havia sido vencedora do Prêmio Contigo! Talentos do Brasil na categoria Artes Plásticas. Nada pode ser mais gratificante do que ter este reconhecimento pelo trabalho que desenvolvo com bastante dedicação e muito suor. Todos sabem que viver de Arte no nosso país não é uma tarefa simples. Gostaria então de agradecer primeiramente ao júri composto pelos grandes jornalistas: Beth Bertinatto, Camila Saccomori, Flávia Requião, Gabrieli Chanas, Leandro Rodrigues, Lúcia Mattos, Patrícia Knebel, Roberto Jardim, Roger Lerina e Rosane Marchetti. Também agradeço a todos meus familiares, meus amigos e alunas, que sem os mesmos nada disso seria possível.
Faço aqui, também, um agradecimento especial à jornalista Anelise Zanoni responsável pela matéria.
Foi um belo presente de fim de ano que não poderia deixar de compartilhar com todos vocês!

Beijos e abraços a todos, 

 Lou Borghetti

O Júri


Turquia – Um museu a céu aberto


Sempre ouvimos falar que a Turquia e sua “capital” histórica Istambul é um lugar exótico e de extremos. Ela contém dois continentes: Ásia e Europa, e já foi Constantinopla no seu apogeu e glória. A Rota da Seda, o Expresso do Oriente e toda a história Otomana com seu esplendor e seus tesouros.



Viajar por este país é uma experiência única, tal a sua diversidade em todos os segmentos.
Embora Istambul não seja sua capital política é para lá que se dirigem milhares de turistas e viajantes todo o ano. A agitação efervescente da cosmopolita cidade emociona o visitante. O trânsito é caótico, mas funciona; aliás, tudo funciona e muito bem. De fato, eles estão preparados para o intenso turismo.
Andar de barco pelo Bósforo é um passeio imperdível, além de ter de um lado a Ásia e do outro a Europa. As casas monumentais nas margens, os navios de passageiros vindos de todos os lugares, os navios cargueiros e petroleiros, barcos de todos os portes vão e vem numa cadência suave e silenciosa. 
Istanbul é aromática, parece que o espetacular Bazar das Especiarias empresta cheiro para toda a cidade. Este bazar é pequeno em relação ao Grande Bazar, mas é denso.  Mal se pode caminhar, o jeito é entrar nas lojas e comprar temperos, doces e chás maravilhosos. Logo na entrada do Bazar, subindo uma escada escondida, encontra-se o Pandelli, um restaurante tradicional que serve comidas típicas de extrema qualidade. Na verdade, há restaurantes e bares para todos os gostos, mas os típicos são especiais.


O sabor do Balik (peixe), o aroma e a delícia dos Meses (aperitivos) acompanhados ou não de Raki (bebida destilada do anis) são imperdíveis.
Mas a Turquia não é só Istanbul... nem de longe. As pequenas cidades históricas são verdadeiras relíquias. Tudo esta a “flor da terra” em Miletto, Éfeso, Dydima e tantas outras na Turquia do Mar Egeu. As escavações não param nunca... há muito o que se descobrir.
Éfeso, a cidade de mármore, é de tirar o fôlego. Mostra ainda grande parte de seu fulgor quando há dois mil anos era a capital da província Romana na Ásia e a maior metrópole do império depois de Roma. Lá está a imponente fachada de colunas da biblioteca de Celso, além do grande teatro e colunas de templos para todos os lados. Caminhar pelas alamedas nos leva a pensar como era viver em Éfeso.
Pamukkale, conhecida pelo o castelo de algodão e suas piscinas azuis em andares de calcário que se formaram nas ruínas de Hierápolis é simplesmente o máximo. Com um vento suave e um por de sol arrebatador.
A Capadócia é um capítulo a parte; uma cidade lunar. Mais de trezentas igrejas no interior de cavernas escavadas em pedras porosas e pintadas com belos e conservados murais.



A configuração geográfica aliada ao tempo e a erosão criaram seus vales característicos. As famosas formações rochosas chamadas de “chapéus de fadas”, os vales das figuras imaginárias em que cada um vê o quer.



O ponto alto é o passeio de balão, 20 pessoas numa cesta de palha e um balão imenso, colorido que se intensifica com o fogo. Chega-se a mil metros de altura. Com a habilidade e experiência do piloto nem sentimos que estamos tão longe da terra firme. O silêncio e a tranquilidade da experiência única nos leva a contemplar do alto aquele lugar e imaginar que, de fato, estamos em outro planeta.

Pode-se esperar tudo de um país que as palavras começam com “ç” em que o esplendor Otomano e o contemporâneo convivem em absoluta harmonia.


Pintura sobre tela - Florações


Depois de muitos anos me dedicando apenas a aquarela comecei a pensar em pintar sobre tela.
Mais tinta, mais cor e um novo desafio. Meus primeiros trabalhos tinham muito a influência da aquarela, tinta muito diluida, transparência e veladuras colagens. Estava tateando numa zona ainda escura, mas com muito prazer e curiosidade em desenvolver bem o trabalho em um novo suporte.
Ainda não pensava a pintura como a soberania da cor sobre a forma.
Como dizia meu mestre, Iberê Camargo "Não se é artista aos trinta anos quem sabe trinta anos após."


Fiz varias exposições na extinta galeria Mosaico na rua Pe. Chagas em Porto Alegre. Uma linda e bem cuidada Galeria charmosa e espaçosa.
Cristina Moré fez um belo trabalho e deixou saudades.

A arte sempre foi passarela de influências. Herança de pele. Retomadas por idolatria histórica, circunstancial, dos grandes mestres. Sem pecado.
A seu modo Elizethe Borghetti transparece a "atmosfera impressionista" de Turner, contida pela cubista armadura cezaniana.
Acompanho o crescimento da artista amiga (acredita nos meus conselhos...). Pelo conjunto apresentado alegro-me por constatar o alcance efetivo de sua pintura recente.
A veladura, filha da aquarela, determinando guarita para seus acrílicos.
Florescimento de cativante viagem sensível que é a própria - Elizethe.

Danúbio Gonçalves
maio de 1994

A Necessidade da Cor: Aquarela



Junto com a simplificação do desenho veio a vontade de cor.
Havia criado um vínculo muito forte com o papel, este suporte é matéria viva , no toque do papel um vigor sensual , as fibras de algodão, a textura, o calor, enfim, é quase poesia. Duas necessidades: manter o papel e acrescentar cor, uma tinta que preserve espaços em branco onde o papel possa respirar.


E foi assim que a aquarela surgiu em minha trajetória de pintora.
Novamente fui buscar um mestre: um grande pintor e gravador, meu amigo Danúbio Gonçalves.
Ele ensinou-me as técnicas da aquarela e também litogravura. Mas esta nunca foi minha paixão, produzi muito pouco.
Fui tocada pela aquarela, tinta dissolvida na água, a magia das manchas e veladuras, as nuances a sutileza.




Foram mais de 10 anos apenas dedicado a esta técnica. Usei todas as possibilidades desde a mais simples e pura até a mais "barroca", cheia de colagens com os mais variados materiais, passando por papel impresso do tipo revistas, livros antigos, cartões postais, tecidos finos como voile, tule, pedaços de roupa pronta, celulose, folhas de ouro, etc. E pensar que alguém um dia me disse: "cuidado, pois a aquarela não se pode errar, ela não tem conserto".







Talvez este tenha sido meu desafio. Trabalhei com a minha técnica até a exaustão. Quanto mais ousava mais ela me dava bons resultados.
Neste mesmo período usei muito o próprio pigmento com adição de cola branca e água. Assim, eu tinha uma espécie de aquarela, mais densa e com cores bem mais fortes.





Experimentar sempre foi o meu forte, gosto do desafio de testar novas mídias. Usei muita terra, de várias tonalidades, assim como carvão, cinza de lareira (uso até hoje), café solúvel, pedras macias e maceradas, lápis de cera, lápis aquarela,  pastel seco, ecoline, guache, etc.
A aquarela me dá uma sensação maior de mistério e de liberdade.

"Algo magnífico na aquarela é expressar atmosfera e distância de modo que a figura esteja rodeada por ar e possa respirar nele". Van Gogh







Todas aquarelas da postagem são de Lou Borghetti. A cópia é permitida somente se houver citação explícita no artigo que reproduz o conteúdo, incluindo links para a página da autora ou seu Blog.

A Desconstrução do Desenho


Conheci o Iberê no final de 1980, mas só passei a frequentar seu atelier em 1982.
Estava na hora de priorizar a forma, o gesto, a emoção em detrimento da técnica acadêmica. Costumo dizer em meu Atelier: Cuidado com desenhos "perfeitos", via de regra lhes falta emoção e identidade.
Em nossos encontros, Iberê buscava grandes mestres da pintura universal. A ele lhe encantava Goya em particular. (Ver post sobre esse tema)
E olhando para uma reprodução impressa em livro, Iberê traçava de um golpe a forma toda, olhando mais para a reprodução do que para seu desenho.
Achei aquilo magnífico e comecei a exercitar.
 Nos primeiros a linha fica dura e sem graça, mas logo o traço foi ficando livre, leve e solto. 






O desenho passou a ter identidade...

















Desenhar faz parte da minha vida de pintora. Ele é, e sempre será a base da pintura. Hoje meus desenhos estão bem mais simplificados, poderia colocar dezenas deles, mas deixo uma mostra do que ando produzindo.





Como diria Iberê: "A linguagem dos pintores é muda, uma mímica especial."

Linha do Tempo II - Entre Outros, Meus Desenhos...


Lou Borghetti, Desenho, 54 x 42 cm, 1981

Pensar esta linha de tempo é um desafio ao artista pois tenho que manter um foco naquilo que é o mais representativo na minha obra. Poderia fazer muitos registros de vários momentos que, talvez, cada um teria contribuído para o desenvolvimento do meu fazer artístico. 
Na minha infância e logo adolescência tinha um sonho, o de ser pianista ou bailarina.
Acho que esta demanda fazia parte de quase todas as meninas de minha época...
A mim coube o desenho e a pintura, talvez por ser acessível e prático, sem depender necessariamente de um grupo ou escola.


                         Lou Borghetti, Desenhos, 66 x 49 cm, 1981


Nesta fase, pintava tecidos ou melhor, lencinhos de cambraia delicadamente feitos a máquina pela minha mãe com rendas de algodão e embalagens de cartão e celofane. Fazia isso às dúzias e meu pai os colava no taxímetro de seu automóvel para vender a seus passageiros.
Era muito divertido e todos em casa festejavam o sucesso das vendas com elogios à menina de 12 anos.
Depois passei a pintar camisetas com desenhos exóticos à maneira hippie, artesanatos, pinturas em estatuetas de gesso, bijuterias, enfeites de natal, e durante muitos anos me dediquei à pintura em Porcelanas mais decorativas que artísticas.

            Desenho, 66 x 48 cm, 1981      Desenho, 60 x 48 cm, 1981

Em 1971  ingressei no Atelier livre da Prefeitura de Porto Alegre e comecei a fazer entalhes em madeira com o prof. Anestor Tavares onde plasmei mascaras africanas, alegorias gregas e egípcias e logo desisti. Porém, bem mais tarde voltei a fazer aulas de escultura com o nosso querido e sempre lembrado Claudio Martins Costa. Durante mais ou menos quatro anos tentei escultura mas, logo vi que definitivamente aquilo não era pra mim - mesmo assim ainda fiz parte de algumas exposições coletivas. Paralelo a isto já estava as voltas com novas técnicas e cursos, e em 1975 frequentei a escola de artes decorativas, e em 1977 e 78 a Escola Nacional de desenho.


Lou Borghetti, Desenhos, 66 x 49 cm

Em 1981 passei a frequentar as aulas de desenho do grande  mestre e excepcional desenhista e professor, Plinio Bernhardt . Trabalhei mais de ano só com figura humana e modelo vivo e de forma acadêmica, desenhos de observação.
O desenho sempre fez parte da minha vida de artista, adoro desenhar, a linha sempre me fascinou. São centenas de papéis, dezenas de sketchbooks...

O desenho é uma linha de risco. Entre traços, círculos, linhas e sombra busco uma verdade para além da realidade.
                                                       Lou Borghetti

Lou Borghetti, Desenho, 66 x 48 cm, 1981
Le Corbusier, Escritos: "Desenhar é, primeiramente, ver com os olhos, observar, descobrir, desenhar é aprender a ver, a ver nascer, crescer, expandir-se, morrer (...) Desenhar é, também inventar e criar. O Desenho permite transmitir integralmente o pensamento, sem o apoio de explicações escritas ou verbais. Ajuda o pensamento a tomar corpo, a desenvolver-se.(...) O desenho pode prescindir da arte. Pode não ter nada haver com ela. A arte, pelo contrário, não pode expressar-se sem o desenho".

Desenho, 66 x 49 cm , 1981           Desenho, 59 x 48 cm, 1981


Todos desenhos da postagem são de Lou Borghetti. A cópia é permitida somente se houver citação explícita no artigo que reproduz conteúdo, incluindo links para a página da autora ou seu Blog. 

Enredo para um tema: a memória, tempo e fragmentos





Linha do Tempo

Adélia Prado (poeta mineira, das melhores) escreveu: "O MELHOR DO AMOR É SUA MEMÓRIA"

Esta linha poética está em um de seus poemas chamado "Enredo para um tema" e agora me aproprio para dar título a esta LINHA DE MEMÓRIA.

Desenhos de Lou Borghetti aos 4 e 6 anos de idade.

Nasci no anos 50/60 numa cidade, na época um vilarejo, chamada Chapada, um lugar lindo, região do Alto Uruguai, uma grande chapada de terras muito férteis em meio a elevações
por todos os lados. Uma região agrícola e de origem alemã, situada entre Carazinho e Palmeira das Missões. Meus avôs eram de origem italiana coisa rara naquele lugar.
Nasci em casa com uma parteira alemã.
Penso que naquele instante a oração mais pródiga teria sido novamente um poema de Adélia:

Com licença poética

"Quando nasci um anjo esbelto, 
desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira"[...]

 Lou Borghetti, primeira colagem com "figurinhas" de decalque

Lou Borghetti, desenho aos 12 anos.

E desde então, cumpro, mais feliz que triste, minha sina de carregar bandeira, com muito lápis e papel, tintas e pincéis...
Meu lugar no mundo, além da minha casa-atelier, é entre uma tela e outra, entre desenhos, uma ópera e o folhear dos livros.
Vivi naquele lugar bucólico, a terra de minha mãe, apenas os nove meses da gestação e os dois meses de vida. Então mudamos para Carazinho, a terra emprestada de meu pai, pois, sua cidade natal é Flores da Cunha  e lá esbocei a primeira fase de minha infância.
Com 8 anos viemos para a capital, Porto Alegre. A cidade grande onde a curiosidade se oferece em abundância e a inocência corre perigo.