Agenda Cultural em São Paulo

Lou Borghetti com Maria Adelaide Amaral, autora da novela Sangue Bom


Mês passado estive em São Paulo para colocar em dia minha agenda social/cultural. Aproveitei para ir no lançamento do livro Intensa Magia de Maria Adelaide Amaral. O livro é uma comédia dramática que foi peça de teatro também de sua autoria nos anos 90 e em 2002 foi adaptada para o cinema com o título de Querido Estranho. A capa do livro conta com uma obra do artista plástico e grande amigo Herton Roitman que também estava fazendo uma exposição individual na Galeria Arte Aplicada, mesmo local do lançamento do livro.

  Fica a dica...

    Beijos,

       Lou

Possíveis Paisagens: Memória, Sensações e Cor

Detalhe da fachada do MARGS no período da exposição Possíveis Paisagens. Porto Alegre, 2006.

Marcel Proust, no seu livro "Em Busca do Tempo Perdido", depois de adulto, ao voltar à sua casa de infância, percebe que o espaço e os objetos como a escada, as cadeiras a cama, não eram assim tão grandes. Eram normais mas, em sua memória, a sensação que lhe vinha era de amplidão. A desproporção que  tanto o assustava na época se desvaneceu afinal, as coisas eram  reais e proporcionais. Também o espaço fisico, ao sair nos campos, era de paisagens imensas.

Um ano antes da minha exposição no Margs, encontrei 3 desenhos coloridos a lápis de quando eu tinha 4 anos. A emoção tomou conta de mim e fiquei muito tempo observando todos os elementos que compunham aquelas pequenas "paisagens" povoadas de estranhos símbolos e dos mais variados tamanhos e de tão ricas sensações. Percebi que a criança está relativamente em desvantagem frente a tudo que habita seu entorno. 
Assim surgiu o tema POSSÍVEIS PAISAGENS. (Nome dado pelo artista e crítico de Arte Paulo Gomes) 
A cor é o elemento principal, cores em profusão que também permeiam o mundo que deixamos em nossa infância remota, onde tudo é colorido. A inocência é colorida.

"Tudo o que devo dizer da casa de minha infância, é justamente o que preciso para me colocar em situação de onirismo, para me situar no limiar de um devaneio em que vou repousar no meu passado." (BACHELARD, 1993)

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 32




LOU BORGHETTI - PINTURAS

É surpreendente comunicar-lhes que, em meio a tantas instalações e conceitos, ressurge alguém que ama. Que ama a pintura em sua forma mais singela e despretensiosa, elementar, espontânea. Sim, alguém ainda capaz de pegar em pincéis e, sobre a superfície do papel ou da tela, espalhar cores, criar tramas, construir texturas, inventar narrativas.

Há uma história que merece ser contada. Não é uma farsa, nem novela. Também não se trata de lírica invenção poética desmedida. A fala que se percebe e se ouve, que salta deste conjunto de diferentes estaturas e formatos, é a fala de gente igual a você. Você mesmo, aí, que está lendo este texto. Gente de carne e osso. Gente que sofre e ri. Que se encanta e desata. Que é artista por destino.

Arte (ou destino) não é coisa lá de se achar estranho. Arte não é coisa de gênio. Arte que vale a pena ser vista e vivida é para impregnar nosso cotidiano, invadir nossa casa, habitar o meu, o seu olhar. Há algo melhor para resolver este claro enigma da existência do que acrescentar beleza e não banalidade ao mundo? Se a função da vida é mais vida, Lou acrescenta pitadas, pinceladas, bocadas de tinta aos aromas e sabores de nossa contemplação.

No seu poema Os Sapos, lido na Semana de Arte Moderna de 22, Manuel Bandeira já desancava os parnasianos. Ele estava farto do lirismo comedido, da prosa do mercado, das artimanhas e invencionices dos textos críticos. Ele queria falar de coisas concretas: bons poemas, boas pinturas, boa música. O Brasil se inventava a si mesmo. Adentrávamos os anos 30 e produzíamos excelência na arquitetura, na literatura de caráter regionalista. As pessoas não eram produto da sociedade de espetáculo.

Volto ao passado, a uma época em que se criava sem fanfarronice e sem o olho gordo voltado à mídia. O artista tinha de se provar por seu talento. Por sua entrega. Por seu amor esclarecido a si mesmo e às coisas brasileiras, entranhadas em sua formação.

Lou exalta luzes que trazem bocadinhos do Brasil: memórias, cadeiras em que sentamos, flores que aspiramos, enevoamento que não ousamos dispersar. Tudo se embebe em olhar e tinta. Tudo se dissolve em gesto e corpo. A artista retira sua pele, sua roupa mais íntima e, nua, sem pudor de entrega, se envolve no linho da tela, no algodão ou celulose do papel.

Lou, assim, parece emergir da memória do tempo. [É bom que estejamos despidos de quaisquer sentimentos tolos ao entrarmos no MARGS.] Sua pintura é bruta. Real. Presente. Não há nenhum lirismo desmedido. Ela faz da arte de manchar, com cores, superfícies antes intactas de branco, uma marca. Ouvimos o farfalhar das pinceladas, o marulhar das tintas. Há matéria viva, úmida, impossível de secar pela ação do tempo. Lou parece habitar, mais que às margens do Guaíba, à margem do tempo. E, no entanto, por paradoxo, sua contemporaneidade é radical. Ela não faz concessões. Ela faz pintura.


Leonel Kaz


O texto escrito por Paulo Gomes, pode ser conferido clicando AQUI.











Múltiplos de 1: Desdobramento fotográfico




Na exposição Múltiplos de 1, as imagens fotográfica foram feitas a partir de apropriações de arte urbana e superfícies. O uso invertido e espelhado das imagens em módulos criam uma linguagem que vai para além da fotografia. Tudo se multiplica e se divide, tudo é um ou MÚLTIPLOS DE UM.
Fotografo como uma pintora. Percebo “pinturas” nas paredes, muros, madeiras de casas antigas, ferrugem, troncos de árvores e raízes. O detalhe está próximo e presente, vivo e colorido. Resgato e me aproprio destes fragmentos de cores, contrastes, texturas oxidadas, compostas e decompostas. A beleza está onde aparentemente não há beleza.
A ação do tempo é sutil, não se percebe, mas segue deixando marcas. São essas marcas, testemunhas do tempo em andamento, que busco captar. A alquimia do tempo na matéria original.
[...]
São abstrações do nosso cotidiano: o mistério do tempo em ação. Sempre que estou capturando imagens coloridas e corroídas, percebo, além das formas e cores, a dimensão humana, a ação inexorável do tempo. Tanto faz estar o navio aqui ou em qualquer outro lugar, seu destino seria o mesmo, parte de um processo de finitude, envelhecimento e morte. Na memória depositamos a captura de um momento. Através dela deslocamos o tempo. Ali existe história, abandono, segredos e silêncio. A imagem é desconstruída e reconstruída infinitamente. O visível e a transcendência, o passado que se interpõe ao presente e projeta um outro futuro. 




Lou Borghetti e Roque Jacoby, Secretário da Cultura na época
In memoriam: Alex Vallauri

Multiples of 1
Multiples of one

Múltiplos de 1, múltiplas de uma

Elizethe Borghetti pinta, passeia, dá aulas, viaja, fotografa.

Elizethe Borghetti não para, não dá tempo ao tempo.

Em viagem, ou não, ela registra o tempo transformado em textura. Alguém já disse que o tempo tem assinatura nos muros, portas e paredes pelos caminhos sejam quais forem? Bom, então está dito e fotografado.
Elizethe é mais veloz que o tempo, ou será que ela desobedece ao tempo? Múltiplas de uma artista, ela fez das marcas estáticas do tempo, movimentados, quase sonoros Múltiplos de 1.

Sabe-se lá o que ela fez! E hoje, agora, para que pintar se já estava “pintado” aquilo que ela capturou, e multiplicou?

Amanhã ela vai pintar, vai passear, fotografar. E não vai depender do tempo!

Luiz Eduardo Achutti
(fotógrafo, antropólogo e professor do Instituto de Artes da UFRGS)



Formas abstratas

Lou Borghetti e família
Entre um tema e outro (ou uma exposição e outra), é comum o artista sentir um certo vazio. Fica-se pouco produtivo, porém, fica-se também atento a tudo - menos ação mais atenção. Considero uma espécie de incubação, um processo de preparação e amadurecimento para a chegada de um novo assunto. Acredito que isso faça parte do processo criativo não só dos artistas, mas de todos profissionais que dependam da sua criatividade para produzir. Para nós artistas, o sketchbook torna-se nessa hora um companheiro inseparável e fiel.
Por outro lado, lançar mão do seu próprio repertório como fonte transformadora é muito instigante.  Nestes períodos ando entre o abstrato e o figurativo, entre o novo e o velho, entre o papel e a tela mas... sempre à tinta, sempre à cor.





Fotografias de Lou Borghetti: Bernardino Caballero

Bernardino Caballero, Foto: Lou Borghetti

Porto Alegre - 15/05/2013

O navio que durante anos foi minha fonte inesgotável de maravilhosas FOTOS, vai partir. E o triste é que vai para o desmanche. Não concordo com nada do que li hoje no jornal Zero Hora, aqui de Porto Alegre. Quem disse que um navio aportado mesmo que velho desmerece o nosso cais? Se é assim, e segundo a foto da contra capa ZH, os armazéns também deveriam ser destruídos? Mas o Cais será todo restaurado - praticamente refeito - a custo de milhões, então, porque não revitalizar a velha embarcação e transformá-la, por exemplo, num museu com as próprias peças ou mesmo uma biblioteca com lanchonete etc etc. A exemplo do que fazem os países desenvolvidos, seria um lugar para visitas guiadas, mais uma opção de cultura e lazer. Um museu que contaria a própria história. Fico imaginando as filas de crianças e pais de todos os segmentos sociais nos fins de semana, esperando ansiosos para entrar e ver, o que a maioria veria pela primeira vez, um navio por dentro. UMA LÁSTIMA. No meu ponto de vista, Porto Alegre não viu o que de fato tínhamos de potencial ali.

Cais do Porto - Porto Alegre/RS, Foto: Lou Borghetti








Lançamento do Livro: Ensaios sobre a embriaguez


Capa do Livro: Composição idealizada por Lou Borghetti

A Editora Record e Livraria Cultura convidam para o lançamento do livro Ensaios sobre a embriaguez, de Vicente de Britto Pereira. O evento acontecerá no dia 21 de maio, terça-feira às 19h na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country em Porto Alegre. 


Convite: Clique para aumentar

 
Sobre o livro/autor: Clique para aumentar
Contracapa

Os Quatro Elementos: A Memória da Terra

A Terra, 110 X 150 cm,  2003 - Acervo do MARGS
Ainda trabalhando os sete povos das missões (baseada na estatuária, em geral, religiosa - feita pelos índios no período das missões, sob orientação dos Jesuítas), comecei a me interessar e olhar mais atentamente para o nosso índio, o índio de hoje. Não apenas o aqui do sul mas também o índio do norte. Os índios do norte do Brasil me parecem ter um trabalho mais sofisticado. A utilização do barro, seus rituais, os adereços de pena, tudo em sintonia, formando uma linguagem própria, premissa básica para caracterização de sua própria identidade cultural. 
Misturando o barroco da época com o índio contemporâneo, fui em busca exatamente desse mesmo raciocínio e fui adicionando técnicas de colagem, pigmentos, folha de ouro e outros elementos à pintura.
Desta fase surgiu a exposição ELEMENTOS, no ano 2000. Além das pinturas, fiz uma instalação que denominei "O que não se encaixa", utilizado caixas acrílicas de CDs descartadas com  terra, ninhos, penas, etc... Elementos que remetessem ao índio e sua terra.

Foto da Exposição - APLUB, 2000
Matéria no Jornal Pioneiro de Caxias do Sul. Maio de 2003
Convite da Exposição Elementos






Atelier Lou Borghetti

Cartografia Missioneira

Lou Borghetti nas Missões

Os grandes mestres europeus são indispensáveis para a formação de qualquer artista mas, após a exposição das releituras (abordadas no post anterior), começou a amadurecer em mim uma nova fase. 

Sentia a necessidade de buscar uma maior identificação com minhas raízes. Precisei ir tão longe para chegar no que estava ao meu lado: A arte no Rio Grande do Sul, o seu nascedouro, o nosso barroco, os sete povos das Missões e seu legado.


Sei bem que o tema para um pintor não é tão relevante mas, neste caso e naquele momento, fui absorvida quase que completamente por esse que foi tão apaixonante.


Com a utilização da técnica mista de colagem e pigmento por vezes as imagens eram tão fortes que dispensava o uso da tinta. Não consegui deixar de fazer um trabalho conjunto de investigação, queria descobrir do meu modo, isto é, apenas com minha intuição e leitura, onde estava o legado do povo Tupi-Guarani sem as marcas tão evidentes da tradição européia trazida pelos Jesuítas 



Viajei primeiramente para Santo Ângelo mas também estive na redução Argentina e Paraguaia.  Em São Miguel das Missões (O sítio arqueológico mais bem conservado) estive várias vezes. 







No  museu idealizado  pelo grande arquiteto Lucio Costa, chamou-me a atenção uma escultura de sabor nativo: um  misto de anjo de falsas asas e criança com cara de adulto com o dedo indicador em riste, sinal de alerta, irônico e inocente.
Este ícone bem poderia traduzir minha ideia de paz, memória e identidade. E assim trabalhei durante anos com paixão o tema que denominei Cartografia Missioneira em 1997.






Matéria na Revista Caras