Artemosfera - Porto Alegre


Projeto pioneiro de intervenção artística, o Artemosfera faz da capital gaúcha palco do primeiro circuito de arte urbana no Brasil. Realizado pelo Grupo RBS, o Artemosfera criará um circuito de arte urbana com a colaboração de artistas plásticos convidados.
Meu trabalho está no Parque Germânia, próximo ao Shopping Iguatemi, e irei utilizar o Blog para colocar algumas fotos  e também falar mais sobre a minha intervenção.

PARQUE MANIA – PARQUE GERMÂNIA

Faz parte da cultura dos Porto Alegrenses o lazer em parques. Por isso "Parque Mania".
O Parque nos passa uma sensação de liberdade (Ar*), sem paredes. Ambiente contrário ao da rotina de casa/trabalho.
* Ar – Amar, Blogar, Criar, Deletar, Encontrar, Ficar, Sonhar, Tuitar, Realizar, Preservar... Esses são verbos terminados em "Ar" que escrevi pelos degraus das escadas do parque, trazendo também verbos associados à tecnologia.
No Parque, temos um ambiente que incentiva a criatividade (imaginação) presente no pensamento, na brincadeira, no esporte...

Cada um de nós pinta com sonhos a praça de sua vida...
                                                Lya Luft

Um local lúdico, livre (Ar Livre), pronto para sofrer uma intervenção, uma criação, como uma tela em branco e lápis coloridos.
Um momento a ser valorizado.
  
Antes

Depois





Eu queria algo que não fosse preciso, mas precioso...
                                     Lou Borghetti
 

Workshop de Verão - Pintura Acrílica

William Shakespeare: Homem de todos os milênios


No ano 2000, virada de século, o canal GNT mostrou um belíssimo documentário de quase duas horas sobre William Shakespeare.
 Alguém inventou que o milênio que findara teria um representante. O que eu sei, por ter gravado, é que os dois nomes escolhidos ou quem sabe finalistas foram: Leonardo da Vinci e William Shakespeare. Este último ficou como o HOMEM DO MILÊNIO.
 Não estou criticando, apenas mostrando fatos televisivos. Para mim, foi um susto. Mas como? Por quê? Como artista plástica e conhecendo bem a vasta e complexa obra de Leonardo, a mim parecia que a ele caberia a homenagem. E assim, acompanhei os dois documentários. Aliás, muito bem feitos.
 Tive um ganho maravilhoso, pois até então eu conhecia pouco e mal a obra do bardo gênio. Caí de amor por essa obra; passei a ler as obras e ver todos os filmes disponíveis.
 De resto, meus amigos e fiéis seguidores, quero dizer que: to be or not to be, o homem do milênio não faz a menor diferença.
 Eles sempre serão Homens de todos os milênios,
E para completar, abro a revista Veja, e por absoluta casualidade, duas reportagens sobre os homens do milênio: Shakespeare e da Vinci.
Na matéria sobre Shakespeare a revista traz uma crítica sobre o filme Anonymus do diretor alemão Roland Emmerich. O filme é ambientado no século XVI e atribui as obras de Shakespeare ao poeta lírico Edward de Vere, o décimo conde de Oxford.
Vou transcrever exatamente o que está na manchete da reportagem:
 
"Era ou Não Era, Eis a Questão”.
"Ao duvidar que Shakespeare foi Shakespeare, o novo filme de Emmerich seria uma boa diversão de domingo, não fosse a cria bastarda de um tempo que iguala o fato à convicção." (REVISTA VEJA)

"Hollywood desonra o bardo". (REVISTA VEJA)

"A obra de William Shakespeare esteve em paz e contribuindo ao mundo por mais de dois séculos". (REVISTA VEJA)

"No correr dos anos, com a ligeireza própria do descompromisso, apareceram mais de setenta candidatos a Shakespeare, entre eles o dramaturgo Christopher Marlowe, assassinado aos 29 anos, e Francis Bacon, que, sendo filósofo e cientista, entrou na lista de gaiato". (REVISTA VEJA)
Shakespeare's Globe Theatre

William Shakespeare - Homem de todos os tempos.

Shakespeare escreveu:
"Nem tudo que reluz é ouro" (Mercador de Veneza)
"O que não tem remédio, remediado está" (Otelo)
" Meu reino por um cavalo" (Ricardo III )
" Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia" (Hamlet)
William Shakespeare é o mais amplo e abrangente dramaturgo de que temos notícia. O mais traduzido e encenado em filmes, peças, livros, etc.
 E como diz Harold Bloom, profundo conhecedor da obra Shakespeariana," a idéia do personagem ocidental, do ser como agente moral, tem diversas origens: Homero e Platão, Aristóteles e Sófocles, a Bíblia e Santo Agostinho, Dante e Kant, e quem mais o leitor desejar acrescentar, mas a personalidade é uma invenção shakespeariana, e tal feito constitui não apenas a grande originalidade de Shakespeare, mas também, a razão maior de sua perene presença".
Shakespeare tinha uma superioridade intelectual acima da maioria. Ele tornou-se o grande mestre da sondagem do abismo existente entre o ser humano e seus ideais. Para Bloom, ele é o autor da "invenção do humano".
 O grande crítico e historiador francês Hyppolite Taine dizia que Shakespeare, e depois Balzac, "são os maiores repositórios de documentos que possuímos sobre a natureza humana".
 Os sentimentos sublimes, os sórdidos, a perversidade, a generosidade, a melancolia, o desespero, a paixão correspondida, a paixão sem esperança, a paixão proibida, o deboche, a ironia, o humor corrosivo, o humor ingênuo, o ciúme, a inveja, a ambição pelo poder, enfim, tudo está plasmado em suas peças e poemas. “O bardo inglês é um legado que se constitui numa das manifestações artísticas mais importantes da humanidade."
 É importante acrescentar certas particularidades deste homem genial e o único considerado universal:
- Tinha a capacidade única de descrever e perceber  as pessoas em  seus atos e atitudes como elas realmente são sem jamais  julgá-las além de absoluta ausência de ego.
- Os autores que mais influenciaram Shakespeare foram: Ovídio (de família abastada foi para Roma estudar retórica) com Metamorfoses e Michel de Montaigne (de formação sólida e erudita) com Ensaios. Ovidio lhe deu a idéia de que tudo muda constantemente, e que o universo está em permanente mutação.  Com Montaigne o questionamento absoluto e sentimento cético.
- Ele não acreditava que suas peças fossem encenadas após sua morte. Não havia interesse de sua parte em publicá-las.
- Acreditava apenas em seus poemas e que através deles entraria para a história.
- Um homem comum utiliza, ao longo de sua vida, não mais que dois mil vocábulos. Um erudito pode fazer uso de seis a sete mil. Shakespeare usou mais de vinte mil, além de ser o criador de inúmeras palavras e estruturar a língua inglesa.
- "Seus personagens não se revelam, mas  se desenvolvem e o fazem porque tem a capacidade de se auto-recriarem. Escutam a própria voz. Falam consigo mesmo, no nobre caminho da individuação". Harold Bloom
 

Hamlet - intelecto , perplexidade, abismo.
Lear (Rei Lear) - sofrimento absoluto
Falstaff - vitalidade
Otelo - entre o Bem e o Mal a dignidade
Rosalinda (Como Gostais) - espirituosidade
Macbeth - ruína - imaginação passiva- medo - Macbeth matou o sono.
 
 
 
 SONETO LXX
Se te censuram, não é teu defeito,
Porque a injúria os mais belos pretende;
Da graça o ornamento é vão, suspeito,
Corvo a sujar o céu que mais esplende.
Enquanto fores bom, a injúria prova
Que tens valor, que o tempo te venera,
Pois o Verme na flor gozo renova,
E em ti irrompe a mais pura primavera.
Da infância os maus tempos pular soubeste,
Vencendo o assalto ou do assalto distante;
Mas não penses achar vantagem neste
Fado, que a inveja alarga, é incessante.
Se a ti nada demanda de suspeita,
És reino a que o coração se sujeita.
                  William Shakespeare 




"Não sei se Deus criou Shakespeare, mas sei que Shakespeare é o grande responsável pela nossa criação".
                        Harold Bloom

" Shakespeare dá vida a mente".
                        Harold Bloom

Salvador Dalí - Um Curioso Insaciável

Salvador Dalí

Todas as manhãs ao acordar, escreveu o pintor de Relógios Moles e das Girafas em Chamas, experimento um prazer supremo: ser Salvador Dalí.

Nunca tive muita ligação a Dalí e ao Surrealismo de modo geral, a excessão de René Magritte. Porém, seria um disparate não considerá-lo um dos maiores e mais fascinantes de todos os tempos. Olhando com atenção a obra de Dalí, dois segmentos me chamam atenção especial: Seus desenhos absolutos e suas releituras (pinturas de outros pintores).

1. Desenhos
A linha de seus desenhos e os traços soberbos. Os claros, os meios-tons, as sombras e a destreza no fazer, criando ritmo ao desenho. As figuras parecem falar, dançar - os volumes são perfeitos.

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Ele desenha com todas as possibilidades.
Do acadêmico perfeito às complexas linhas de riscos circulares e levemente sinuosas até o esboço sintético solto e belo.



 Como desenhista ele esta entre os maiores, junto a Picasso, Durero e Leonardo da Vinci.
Até mesmo suas múltiplas e variadas assinaturas são desenhos.



O Delirante consciente
Catalão sedento de ouro e de glória, Dalí pintou e falou muito. O seu tema favorito: como nos tornamos um gênio. A sua conclusão:  "Ó Salvador, tu sabe-lo agora, se brincas aos gênios, tornas-te num!"

2. Releituras das obras  renascentistas



Rafael / Dalí - A Escola de Atenas

Um espírito inquieto em perpetuum mobile que possui a curiosidade universal dos homens do Renascimento. Assim, ele trabalhou avidamente a partir de obras de pintores consagrados como Piero della Francesca, Millet, Vermeer, Velázquez, Miguel Angel, entre outros... Também o fez com os contemporâneos Matisse, Seurat, Picasso, Bonnard, Juan Gris....
Dalí passava de um ao outro, construindo com seus tons, novas formas e humor a la Dalí.
Desta época faz parte o tema da Venus de Milo que mais tarde será a Venus de Milo com gavetas, ela se repetirá muitas vezes. E Gala sua eterna musa inspiradora, presente na vida e na obra deste gênio multifacetado e performático.

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Dalí deixou uma vasta obra além das pinturas, desenhos e esculturas. Contribuiu com o cinema, teatro, fotografia, moda, escritos, objetos,etc.
Viveu plenamente seus 84 anos. Nasceu em 11 de Maio de 1904 em Figueras - Catalunha, Espanha - Morreu em 23 de Janeiro de 1989.

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"A única diferença entre mim e um louco, é que eu não sou louco."

Dalí também disse o mais evidente:

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"A diferença entre mim e os surrealistas, é que eu sou surrealista".

Imagens:
1 - Dalí - Retrato do Pai e da Irmã do Artista, 1925
2 - Dalí - Metamorfose Paranóica do Rosto de Gala, 1932
3 - Diego Velázquez - A Infanta (Las Meninas), Original e Releitura por Dalí
4 - Vênus de Milo, Original e Releitura de Dalí
5 - Pala di Brera, Piero della Francesca
6 - Salvador Dalí - Madonna de Port Lligat
7 - Michelangelo - A Criação de Adão
8 - Henri Matisse - A Dança
9 - O Angelus - Jean-François Millet
10 - Salvador Dalí - Atavismo do Crepúsculo
11 - De Velázquez a Dalí, 1957
12 - Dalí Gioconda, 1954

Fonte: DESCHARNES, Robert; Neret, Gilles. Dalí: a obra pintada. Köln:Taschen, 2001.780p.

Anselm Kiefer - O criador de livros



Anselm Kiefer nasceu em 1945 em meio a uma Alemanha soterrada pelos escombros da Segunda Guerra. O Holocausto e a Cabala, além do cosmos e a natureza, são temas recorrentes em sua ampla e complexa obra.
Em 2006 decidi ficar um mes em NYC.  Minha primeira grande surpresa foi uma mega exposição no Metropolitan de Robert Rauschenberg com a mostra Combines, pintura associada a colagens, assemblagens e objetos numa profusão de cores e formas impactantes. Uma exposição monumental de um artista genial. A segunda surpresa chegou em seguida, no mesmo local, onde fui informada de uma exposição de Anselm Kiefer em Montréal. Então...

Mudanças de planos...  Rumo a Montréal, com a intenção única de ver a mostra de Anselm Kiefer intitulada Heaven and Earth no Musée D"Art Contemporain de Montréal. Uma mostra  tão grandiosa em forma e conteúdo que descrevê-la seria quase impossível. Ver para crer , emocionar e jamais esquecer.
De imediato tracei um paralelo entre meus dois "mestres": o alarmante colorido de Robert Rauschenberg e a quase ausência de cores em Kiefer, e, talvez por isso, ainda mais impactante.
Telas imensas, muitas das quais sobre fotografia com adição de materiais volumosos, terra calcinada, cinza, areia, arames, vidros, palha, imensos girassóis secos, roupas, escritas, etc., Esculturas, livros objeto.

 


Frente a uma obra chamada The Secret Life of Plants (2001) pintura, mixed media sobre grossas chapas de chumbo, [dimensões:  309.0cm de diâmetro (200.7x147.3cm cada página)] me ocorreu pensar o espaço do artista, aquilo que convencionamos chamar ATELIER; - Onde e como ele concebe e dá forma a essas obras monumentais?
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The Secret Life of Plants [La Vie secrète des plantes] 2002

Um atelier em escala industrial

Em 1992 A. Kiefer se estabeleceu  em Barjac, França, e transformou uma planta industrial em um ateliê de 35 hectares, apelidado de La Ribaute. Criou nele um extensivo sistema de prédios de vidro, arquivos, instalações, depósitos para materiais e pinturas, câmaras e corredores subterrâneos.
Com áreas  específicas, lugares de armazenamento de materiais a serem utilizados como ele mesmo diz "quem sabe um dia... mas usar tudo isso talvez nunca aconteça".
Intrigada em desvendar um pouco mais sobre este lugar "mágico" e misterioso além do fato de ter sido uma fábrica onde se produzia Seda, fui em busca.
Na loja do museu comprei o catálogo da expo e, entre outros, encontrei uma preciosidade: Um pequeno livro chamado Kiefer s'attaque à la matière de Nadine Coleno, que mostra vários ângulos e perspectivas do mega atelier - cada espaço com um uso específico, incluindo o atelier dos Livros objetos.
A arte de fazer livros. Esta talvez seja sua grande paixão. Kiefer  criou seu primeiro livro com 9 anos de idade. Era um livro de ilustrações em aquarela,  todo feito por ele, da encadernação até a capa. Ele mostra o livro a um pequeno grupo de crianças, não mais que dez, em visita ao atelier. As crianças curiosas e encantadas que mesmo sem entender a complexidade da obra  do grande mestre sentem-se muito a vontade e parece até que falam a mesma linguagem.



O artista polêmico, gigante e genial  de cores sombrias e formas perfeitas está alí embebido da nova juventude, mostra a feitura de livros, passeia por entre eles, pinta as fotos com a ajuda dos meninos. Os jovens visitantes, colaboradores e artista numa natural  sintonia.
Anselm Kiefer ficou ainda maior, pois mesmo pertencendo aos aclamados Deuses do Olimpo, o homem sensível e disponível estava alí junto daquelas crianças como a dizer: Acredito num mundo melhor.

Dica:
Mais sobre Anselm Kiefer breve no filme: Over Your Cities Grass Will Grow. Trailer oficial logo abaixo. 

Linguagem Plástica

A linguagem plástica do pintor dispensaria assinatura

Sou curiosa e criteriosa por natureza.

Assim sendo, procurei investigar o que as pessoas buscaram para chegar ao meu Blog. Curiosamente, um número altíssimo de visitantes chegou através da busca no Google por "LINGUAGEM PLÁSTICA". Resolvi investigar... Conclusão: tarefa árdua...
Lembrei do meu tempo de escola. Formulávamos um conceito e estava tudo revolvido, bons tempos.
Linguagem plástica faz parte do cotidiano verbal do artista de forma tão usual como se todo mundo tivesse entendendo, daí a surpresa.
Que me desculpem os entendidos no assunto, aliás, a pauta está aberta e comentários serão muito bem vindos, pois o tema é de amplo interesse.
É um assunto complexo, que vai além de simples conceitos e exige pensamentos filosóficos, questões semânticas, abrangências outras para além das puramente plásticas.
Vamos começar com um conceito básico de dicionário como fazíamos no ensino básico:

Linguagem: Meio sistemático de comunicar idéias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais, etc.
Qualquer sistema de símbolos ou objetos instituídos como signos: Código

A linguagem plástica quebra o padrão estabelecido ou instituído como signos normativos ou códigos estabelecidos e cria novos. Assim, cada artista no uso de sua liberdade criadora, estabelece para si, seus novos signos e formas.
Por exemplo: O famoso cachimbo de Magritte. Onde existe uma contradição palavra – imagem. Um Cachimbo com a frase logo abaixo "Isto não é um cachimbo".
 

Dica de Leitura: Isto não é um cachimbo de Michel Foucault



Linguagem plástica é a arte de plasmar, modelar, alterar as formas, criar.
Esta abordagem múltipla - poética, lingüística, filosófica, plástica – supõe em considerar que a palavra e a imagem têm a mesma origem, as mesmas funções, estando unidas por diversas afinidades que as tornam cúmplices ao buscar, juntas, o efeito poético. Em síntese, é o ato de fazer - pintar - com propriedade.
Para Magritte, a distinção entre o poeta e o pintor parece não mais existir: “o poeta, que escreve, pensa com palavras familiares, e o poeta, que pinta, pensa com figuras familiares do visível. A escrita é uma descrição invisível do pensamento e a pintura é sua descrição visível” (1979, p.686).


Fonte: MAGRITTE, René. Écrits complets. Paris: Flammarion, 1979.

A História da Arte por Ferreira Gullar



Ferreira Gullar, nascido José Ribamar Ferreira em São Luís no dia 10 de setembro de 1930. Poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro.

De Ferreira Gullar pôde escrever Vinícius de Moraes que é o último grande poeta brasileiro. E é a última voz significativa da poesia, atalhou o nosso Pedro Dantas. Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo), é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.  Mas em Gullar a voz pública não se separa em momento algum de seu toque íntimo, de seu timbre pessoal, de esperanças e desesperanças, das recordações da infância numa cidade azul, evocada no meio de triste exílio portenho. Longe dos tempos em que o exercício regular da crítica me punha em dia com o melhor – e o pior – de nossas letras, absorvido inteiramente, desde então, por outras ocupações, foi recente meu primeiro contato pessoal com sua obra poética. Veio-me pela mão amiga de Oscar Niemeyer, no meio de outros volumes de sua Avenir Editora. Ao percorrê-los dei, de repente, com a pequenina grande obra-prima que se chama Uma luz do chão, e a surpresa diante desse descobrimento casual foi o começo de uma exploração sem pausa do universo de Ferreira Gullar. Hoje, sinto-me tão familiarizado com todos os seus recantos que, para a singularidade e a importância de sua contribuição, só encontro de comparável, no Brasil, a prosa de Guimarães Rosa.
*Apresentação de Sérgio Buarque de Holanda no livro Toda Poesia de Ferreira Gullar.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia (1950-1999). 9.ed. Rio de Janeiro : José Olympio , 2000. 511 p.

Atelier Lou Borghetti - Porto Alegre/RS

"O meu lugar no mundo..."

BORGHETTI E O MAR DE TODOS OS NAUFRÁGIOS
                                                                 Lya Luft

Não se vai ao ateliê de Lou Borghetti como para uma visitinha social: ninguém entra impunemente em contato com a arte. Eu, quando ali, tenho vontade de ficar num canto sendo um bicho, um móvel, um objeto, à espreita. Naquele jogo de luz e sombras, cheiros, cores e formas, a desordem aparente confere ao detalhe um profundo sentido. É uma atmosfera dramática, a um tempo sensual e solene. E sempre a música – quase toda vez em que entro, ela escuta ópera. (Callas? Esqueci de perguntar, mas isso é Borghetti.)
Caixas com tampo de vidro espalhadas nas grandes mesas e no chão. De saída me prende uma, com um pequeno rosto em gesso branco (eu acho), misto de máscara mortuária e máscara veneziana. Que vida se congelou naquela caixa? Em todas elas, grandes ou pequenas, preservam-se amor e dor, sonho e morte. O perverso e o delicado, algo oculto que chama: Vem, vem...
A arte de Lou se faz com delírio e tenacidade, ímpeto e requinte. Um retrato de moça antiga, um bilhete escrito em uma velha máquina de escrever. Sedas amarelecidas que ainda farfalham numa dolorosa sensualidade. Mãos da Monalisa, um coração de metal, e algo que de início não identifico: um preservativo. Um ninho de pássaro, plumas brancas: penso em maternidade e acolhimento, mas no fundo vejo sangue de parto ou de ternura assassinada. Pedaços de poemas. Frases escritas em círculo na letra da artista: mandalas. Da letra, da seda, dos arames finos e das palavras – até do símbolo infinito de um mata-insetos -, arqueia-se uma elaborada construção feita de materiais e a eloqüência do silenciado. Desde tempos perdidos, tudo espera ser visto e elaborado, para voltar à vida através da arte.
Aí me viro, e meu coração desfalece: espumas precipitam-se sobre pedras em uma tela grande. Ouço o rumor das ondas, sinto maresia em minha boca. Involuntariamente exclamo: Mas esse é O MAR DE TODOS OS NAUFRÁGIOS!
Pelas mãos da artista se transfiguram os remanescentes de um naufrágio pessoal ou coletivo, consciente ou inconsciente. O que está nessas caixas e telas são destroços de tantas vidas, todas as vidas – a nossa vida. Seda, letra, seio, fios de metal, um olho e mais adiante o ninho com sangue: essa vigorosa humanidade primitiva nos define. O trabalho de Borghetti é uma celebração daquilo que apesar de tudo persiste e é belo, que se desmonta e se recupera incessantemente, como nas transformações da natureza. É uma trama lúcida e onírica onde rótulos e explicações se tornam supérfluos. Pois Lou é também meio bruxa, disso nunca duvidei.
Um pouco de mim permanece naquele ateliê muito depois de eu ter saído: essa obra nos mostra humanos e transcendentes, perdidos mas recuperados, e sempre inconclusos. Como a vida, a arte nunca está terminada.
Publicado no jornal Zero Hora do Dia 19/04/2003









[...] O espaço de trabalho constitui para todos o catalisador de idéias, a oficina de novos desafios. Para grandes obras que envolvem equipes ou para trabalhos às vezes solitários que pedem apenas uma janela, um vaso florido e o pulsar da cidade.[...]
                                                    Leila Kiyomura e Bruno Giovannetti




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