Anselm Kiefer - O criador de livros



Anselm Kiefer nasceu em 1945 em meio a uma Alemanha soterrada pelos escombros da Segunda Guerra. O Holocausto e a Cabala, além do cosmos e a natureza, são temas recorrentes em sua ampla e complexa obra.
Em 2006 decidi ficar um mes em NYC.  Minha primeira grande surpresa foi uma mega exposição no Metropolitan de Robert Rauschenberg com a mostra Combines, pintura associada a colagens, assemblagens e objetos numa profusão de cores e formas impactantes. Uma exposição monumental de um artista genial. A segunda surpresa chegou em seguida, no mesmo local, onde fui informada de uma exposição de Anselm Kiefer em Montréal. Então...

Mudanças de planos...  Rumo a Montréal, com a intenção única de ver a mostra de Anselm Kiefer intitulada Heaven and Earth no Musée D"Art Contemporain de Montréal. Uma mostra  tão grandiosa em forma e conteúdo que descrevê-la seria quase impossível. Ver para crer , emocionar e jamais esquecer.
De imediato tracei um paralelo entre meus dois "mestres": o alarmante colorido de Robert Rauschenberg e a quase ausência de cores em Kiefer, e, talvez por isso, ainda mais impactante.
Telas imensas, muitas das quais sobre fotografia com adição de materiais volumosos, terra calcinada, cinza, areia, arames, vidros, palha, imensos girassóis secos, roupas, escritas, etc., Esculturas, livros objeto.

 


Frente a uma obra chamada The Secret Life of Plants (2001) pintura, mixed media sobre grossas chapas de chumbo, [dimensões:  309.0cm de diâmetro (200.7x147.3cm cada página)] me ocorreu pensar o espaço do artista, aquilo que convencionamos chamar ATELIER; - Onde e como ele concebe e dá forma a essas obras monumentais?
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The Secret Life of Plants [La Vie secrète des plantes] 2002

Um atelier em escala industrial

Em 1992 A. Kiefer se estabeleceu  em Barjac, França, e transformou uma planta industrial em um ateliê de 35 hectares, apelidado de La Ribaute. Criou nele um extensivo sistema de prédios de vidro, arquivos, instalações, depósitos para materiais e pinturas, câmaras e corredores subterrâneos.
Com áreas  específicas, lugares de armazenamento de materiais a serem utilizados como ele mesmo diz "quem sabe um dia... mas usar tudo isso talvez nunca aconteça".
Intrigada em desvendar um pouco mais sobre este lugar "mágico" e misterioso além do fato de ter sido uma fábrica onde se produzia Seda, fui em busca.
Na loja do museu comprei o catálogo da expo e, entre outros, encontrei uma preciosidade: Um pequeno livro chamado Kiefer s'attaque à la matière de Nadine Coleno, que mostra vários ângulos e perspectivas do mega atelier - cada espaço com um uso específico, incluindo o atelier dos Livros objetos.
A arte de fazer livros. Esta talvez seja sua grande paixão. Kiefer  criou seu primeiro livro com 9 anos de idade. Era um livro de ilustrações em aquarela,  todo feito por ele, da encadernação até a capa. Ele mostra o livro a um pequeno grupo de crianças, não mais que dez, em visita ao atelier. As crianças curiosas e encantadas que mesmo sem entender a complexidade da obra  do grande mestre sentem-se muito a vontade e parece até que falam a mesma linguagem.



O artista polêmico, gigante e genial  de cores sombrias e formas perfeitas está alí embebido da nova juventude, mostra a feitura de livros, passeia por entre eles, pinta as fotos com a ajuda dos meninos. Os jovens visitantes, colaboradores e artista numa natural  sintonia.
Anselm Kiefer ficou ainda maior, pois mesmo pertencendo aos aclamados Deuses do Olimpo, o homem sensível e disponível estava alí junto daquelas crianças como a dizer: Acredito num mundo melhor.

Dica:
Mais sobre Anselm Kiefer breve no filme: Over Your Cities Grass Will Grow. Trailer oficial logo abaixo. 

Linguagem Plástica

A linguagem plástica do pintor dispensaria assinatura

Sou curiosa e criteriosa por natureza.

Assim sendo, procurei investigar o que as pessoas buscaram para chegar ao meu Blog. Curiosamente, um número altíssimo de visitantes chegou através da busca no Google por "LINGUAGEM PLÁSTICA". Resolvi investigar... Conclusão: tarefa árdua...
Lembrei do meu tempo de escola. Formulávamos um conceito e estava tudo revolvido, bons tempos.
Linguagem plástica faz parte do cotidiano verbal do artista de forma tão usual como se todo mundo tivesse entendendo, daí a surpresa.
Que me desculpem os entendidos no assunto, aliás, a pauta está aberta e comentários serão muito bem vindos, pois o tema é de amplo interesse.
É um assunto complexo, que vai além de simples conceitos e exige pensamentos filosóficos, questões semânticas, abrangências outras para além das puramente plásticas.
Vamos começar com um conceito básico de dicionário como fazíamos no ensino básico:

Linguagem: Meio sistemático de comunicar idéias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais, etc.
Qualquer sistema de símbolos ou objetos instituídos como signos: Código

A linguagem plástica quebra o padrão estabelecido ou instituído como signos normativos ou códigos estabelecidos e cria novos. Assim, cada artista no uso de sua liberdade criadora, estabelece para si, seus novos signos e formas.
Por exemplo: O famoso cachimbo de Magritte. Onde existe uma contradição palavra – imagem. Um Cachimbo com a frase logo abaixo "Isto não é um cachimbo".
 

Dica de Leitura: Isto não é um cachimbo de Michel Foucault



Linguagem plástica é a arte de plasmar, modelar, alterar as formas, criar.
Esta abordagem múltipla - poética, lingüística, filosófica, plástica – supõe em considerar que a palavra e a imagem têm a mesma origem, as mesmas funções, estando unidas por diversas afinidades que as tornam cúmplices ao buscar, juntas, o efeito poético. Em síntese, é o ato de fazer - pintar - com propriedade.
Para Magritte, a distinção entre o poeta e o pintor parece não mais existir: “o poeta, que escreve, pensa com palavras familiares, e o poeta, que pinta, pensa com figuras familiares do visível. A escrita é uma descrição invisível do pensamento e a pintura é sua descrição visível” (1979, p.686).


Fonte: MAGRITTE, René. Écrits complets. Paris: Flammarion, 1979.

A História da Arte por Ferreira Gullar



Ferreira Gullar, nascido José Ribamar Ferreira em São Luís no dia 10 de setembro de 1930. Poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro.

De Ferreira Gullar pôde escrever Vinícius de Moraes que é o último grande poeta brasileiro. E é a última voz significativa da poesia, atalhou o nosso Pedro Dantas. Parece-me a mim, além disso, que, exceção feita de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do Povo), é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje.  Mas em Gullar a voz pública não se separa em momento algum de seu toque íntimo, de seu timbre pessoal, de esperanças e desesperanças, das recordações da infância numa cidade azul, evocada no meio de triste exílio portenho. Longe dos tempos em que o exercício regular da crítica me punha em dia com o melhor – e o pior – de nossas letras, absorvido inteiramente, desde então, por outras ocupações, foi recente meu primeiro contato pessoal com sua obra poética. Veio-me pela mão amiga de Oscar Niemeyer, no meio de outros volumes de sua Avenir Editora. Ao percorrê-los dei, de repente, com a pequenina grande obra-prima que se chama Uma luz do chão, e a surpresa diante desse descobrimento casual foi o começo de uma exploração sem pausa do universo de Ferreira Gullar. Hoje, sinto-me tão familiarizado com todos os seus recantos que, para a singularidade e a importância de sua contribuição, só encontro de comparável, no Brasil, a prosa de Guimarães Rosa.
*Apresentação de Sérgio Buarque de Holanda no livro Toda Poesia de Ferreira Gullar.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia (1950-1999). 9.ed. Rio de Janeiro : José Olympio , 2000. 511 p.

Atelier Lou Borghetti - Porto Alegre/RS

"O meu lugar no mundo..."

BORGHETTI E O MAR DE TODOS OS NAUFRÁGIOS
                                                                 Lya Luft

Não se vai ao ateliê de Lou Borghetti como para uma visitinha social: ninguém entra impunemente em contato com a arte. Eu, quando ali, tenho vontade de ficar num canto sendo um bicho, um móvel, um objeto, à espreita. Naquele jogo de luz e sombras, cheiros, cores e formas, a desordem aparente confere ao detalhe um profundo sentido. É uma atmosfera dramática, a um tempo sensual e solene. E sempre a música – quase toda vez em que entro, ela escuta ópera. (Callas? Esqueci de perguntar, mas isso é Borghetti.)
Caixas com tampo de vidro espalhadas nas grandes mesas e no chão. De saída me prende uma, com um pequeno rosto em gesso branco (eu acho), misto de máscara mortuária e máscara veneziana. Que vida se congelou naquela caixa? Em todas elas, grandes ou pequenas, preservam-se amor e dor, sonho e morte. O perverso e o delicado, algo oculto que chama: Vem, vem...
A arte de Lou se faz com delírio e tenacidade, ímpeto e requinte. Um retrato de moça antiga, um bilhete escrito em uma velha máquina de escrever. Sedas amarelecidas que ainda farfalham numa dolorosa sensualidade. Mãos da Monalisa, um coração de metal, e algo que de início não identifico: um preservativo. Um ninho de pássaro, plumas brancas: penso em maternidade e acolhimento, mas no fundo vejo sangue de parto ou de ternura assassinada. Pedaços de poemas. Frases escritas em círculo na letra da artista: mandalas. Da letra, da seda, dos arames finos e das palavras – até do símbolo infinito de um mata-insetos -, arqueia-se uma elaborada construção feita de materiais e a eloqüência do silenciado. Desde tempos perdidos, tudo espera ser visto e elaborado, para voltar à vida através da arte.
Aí me viro, e meu coração desfalece: espumas precipitam-se sobre pedras em uma tela grande. Ouço o rumor das ondas, sinto maresia em minha boca. Involuntariamente exclamo: Mas esse é O MAR DE TODOS OS NAUFRÁGIOS!
Pelas mãos da artista se transfiguram os remanescentes de um naufrágio pessoal ou coletivo, consciente ou inconsciente. O que está nessas caixas e telas são destroços de tantas vidas, todas as vidas – a nossa vida. Seda, letra, seio, fios de metal, um olho e mais adiante o ninho com sangue: essa vigorosa humanidade primitiva nos define. O trabalho de Borghetti é uma celebração daquilo que apesar de tudo persiste e é belo, que se desmonta e se recupera incessantemente, como nas transformações da natureza. É uma trama lúcida e onírica onde rótulos e explicações se tornam supérfluos. Pois Lou é também meio bruxa, disso nunca duvidei.
Um pouco de mim permanece naquele ateliê muito depois de eu ter saído: essa obra nos mostra humanos e transcendentes, perdidos mas recuperados, e sempre inconclusos. Como a vida, a arte nunca está terminada.
Publicado no jornal Zero Hora do Dia 19/04/2003









[...] O espaço de trabalho constitui para todos o catalisador de idéias, a oficina de novos desafios. Para grandes obras que envolvem equipes ou para trabalhos às vezes solitários que pedem apenas uma janela, um vaso florido e o pulsar da cidade.[...]
                                                    Leila Kiyomura e Bruno Giovannetti




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