Enredo para um tema: a memória, tempo e fragmentos





Linha do Tempo

Adélia Prado (poeta mineira, das melhores) escreveu: "O MELHOR DO AMOR É SUA MEMÓRIA"

Esta linha poética está em um de seus poemas chamado "Enredo para um tema" e agora me aproprio para dar título a esta LINHA DE MEMÓRIA.

Desenhos de Lou Borghetti aos 4 e 6 anos de idade.

Nasci no anos 50/60 numa cidade, na época um vilarejo, chamada Chapada, um lugar lindo, região do Alto Uruguai, uma grande chapada de terras muito férteis em meio a elevações
por todos os lados. Uma região agrícola e de origem alemã, situada entre Carazinho e Palmeira das Missões. Meus avôs eram de origem italiana coisa rara naquele lugar.
Nasci em casa com uma parteira alemã.
Penso que naquele instante a oração mais pródiga teria sido novamente um poema de Adélia:

Com licença poética

"Quando nasci um anjo esbelto, 
desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira"[...]

 Lou Borghetti, primeira colagem com "figurinhas" de decalque

Lou Borghetti, desenho aos 12 anos.

E desde então, cumpro, mais feliz que triste, minha sina de carregar bandeira, com muito lápis e papel, tintas e pincéis...
Meu lugar no mundo, além da minha casa-atelier, é entre uma tela e outra, entre desenhos, uma ópera e o folhear dos livros.
Vivi naquele lugar bucólico, a terra de minha mãe, apenas os nove meses da gestação e os dois meses de vida. Então mudamos para Carazinho, a terra emprestada de meu pai, pois, sua cidade natal é Flores da Cunha  e lá esbocei a primeira fase de minha infância.
Com 8 anos viemos para a capital, Porto Alegre. A cidade grande onde a curiosidade se oferece em abundância e a inocência corre perigo.



Assemblage: Um trabalho de paciência e criatividade



A técnica de colagem sempre esteve presente em meus trabalhos em acrílica sobre tela e nas aquarelas. Durante anos trabalhei agregando imagens ao suporte. 
Em muitos trabalhos usei apenas as colagens e assemblage como linguagem própria, sem interferência de tintas.
Quando comecei a fazer Monotipias não tinha a menor intenção de usar imagens, mas os acasos acontecem. Certa vez, ao final do processo de impressão percebi que o resultado não era satisfatório. Olhei e não gostei... Rasguei em quatro pedaços e ainda sobre a mesa percebi algo novo. Os pedaços soltos e meio sobrepostos formavam uma nova figura. Gostei e comecei a juntar pedaços, buscando uma nova forma de expressão. Além das monotipias utilizei litogravuras, aquelas que estavam com algum problema do tipo um canto do papel amassado, marcas de dedos, etc. As rasguei, recortei principalmente nas cores vivas, coisa que a monotipia (ao meu modo) não tem - zonas de cores amplas.  Já na primeira adorei o resultado, é de fato um "puzzle". 
Ao contrário da monotipia pura, que é rápida e gestual, esse trabalho é exatamente o oposto, exige concentração e muita paciência. Passa o tempo até que eu encontre o lugar exato para cada pedaço de papel. É uma provocação interna e visual dar forma e conteúdo aos fragmentos de papéis pintados.  
Chamei de Gravuras Reconstruídas (Papier-Collé). Assim sendo, cada trabalho é único 1/1 como as monotipias




* * *




CASAS DE MORAR, CADEIRAS DE MEDITAR
Lya Luft para Lou Borghetti

Escrever sobre artes plásticas é sempre difícil para quem não é entendido. Mas não escrevo sobre pintura, aqui escrevo sobre alma. Sobre a de Lou Borghetti, que toca a nossa nesta sua nova fase, como em todas as que conheci e admirei.
Algo de rasgado no desconstruído que se refaz, como a nossa vida. Algo de muito zen nas monotipias de casinhas que parecem ideogramas, e que dão vontade de abrigarmos ali a nossa alma. Algo de provocativo nas cadeiras, onde a alma vai repousar para sentir o mundo, e meditar.
Nada é acaso, nem a harmoniosa e ao mesmo tempo ambígua criação de Borghetti: somos esfacelados como suas colagens, porque só assim podemos nos refazer mais inteiros; convocados para dentro de nós, para nossa casa interior, onde o mistério (não importam rótulo nem nome) nos oferece eventualmente cadeiras como barcos, para que a gente possa soltar as amarras, despir os disfarces, e tornar-se mais gente através da arte.
Não creio que arte tenha “função”, mas tem “efeitos”: um deles, talvez o mais glorioso, há de ser promover a interiorização, portanto, a libertação de velhos enquadres e aprisionamentos. Para que se proceda um renascimento, na dolorosa, minuciosa ou estonteante reelaboração de nós mesmos, cada vez mais inteiros depois do despedaçamento da reflexão, cada vez mais humanos.
Borghetti tem, para mim, um dedo mágico para nos abrir essas portas.

                                                  Lya Luft











Monotipia: Uma pintura gestual - Parte I



A Monotipia para mim é a pintura do gesto rápido, dinâmico e que mostra o domínio do artista com a forma e o espaço. Além disso, o tempo medido pela prática entre o ato de pintar e imprimir antes que a tinta seque. No meu caso, que uso tinta acrílica e fosca de secagem ainda mais rápida, o trabalho se complica no cuidado de preservar as nuances, as zonas mais claras. A forma que pretendo está definida muitas vezes esboçada em pequenos sketches. Mas também pode ocorrer de plasmar outra coisa porque certamente entre aquilo que imagino e o resultado vai uma grande diferença. O gesto amplo, rápido e certeiro feito arco e flexa deve resultar em um todo satisfatório, os que não são aprovados são descartados. Estes trabalhos são particularmente mais difíceis pelo tamanho 100 x 100.





Tudo tem que estar no ponto exato antes de iniciar, chapa muito limpa, tintas preparadas num ponto de saturação e quantidade de água adequada e com o papel a ser impresso estando bem próximo. Mergulho o grande pincel na tinta , via de regra preta, respiro fundo, concentro e em menos de dois minutos a chapa de 100 x 100 terá que obrigatoriamente estar com toda a pintura-desenho. Rapidamente coloco o branco papel sobre a pintura... Agora nada vejo, é hora de pensar no mistério que está para ser revelado, uma sensação incrível - a impressão. Vou levantando a folha aos poucos porque as variáveis são muitas. É claro que, pela experienência e prática, já sabemos mais ou menos o resultado. Algumas vezes um desastre, mas quando atingimos o resultado desejado é um prazer inimaginável. É uma pintura no escuro, provocativa e fascinante. Essa é minha técnica, existem muitas formas de Monotipia.  Não existe a menor possibilidade de correções e por isso tão fascinante.  



Na América também podemos citar vários artistas praticantes da monotipia como Frank Duveneck, William Merrit Chase, Charles Walker, Maurice Prendergast e muitos outros. Igualmente na Europa vários artistas experimentaram a técnica, como Pablo Picasso (1881-1973) que criou mais de cem , Georges Roualt (1871-1958), Henri Matisse (1869-1954), para citar somente alguns. Nos Estados Unidos temos Milton Avery (1893-1965), Adolph Gottlib (1903-1974), Richard Diebendorn (1922), Robert Motherwell (1915), Mary Frank (1933), Nathan Oliveira (1928) e Jasper Johns (1930), entre muitos outros.




A idéia de que a monotipia é uma "irmã bastarda" da gravura parece não estar longe de mudar. Muitos artistas contemporâneos preferem esta técnica pela execução rápida e versatilidade que ela oferece, fazendo um trabalho sério de grande beleza estética. Em São Francisco, EUA, há um ateliê somente de artistas que trabalham com esta técnica, ponto de encontro de idéias e divulgação de suas imagens.




Monotipia do vídeo acima

*Todas Monotipias do post são de Lou Borghetti. 
Veja mais Monotipias clicando AQUI

Slide Obras Charleston




























USA - Charleston, SC - Part III - Celebração




Que magia há no sagrado momento do convívio! Para além dos aromas das comidas que se espalham pelo ar, há a delicadeza dos hostess ao oferecer água aromatizada, só para começar, em taças lindamente escolhidas. Celebrar a vida... O afago da fala mansa e generosa entre os convidados. Mesas decoradas com tal requinte e delicadeza que nos alegra os olhos e a alma - e aguça o apetite!



Eu assim fui recebida em cada casa, todas as noites e durante todo o tempo em que estive nos EUA.
Obrigada meus queridos amigos de Washington DC e Charleston SC.

Beijos, 

Lou Borghetti



Clique na foto para Aumentar - Click to Enlarge


Slideshow - Charleston, SC, USA 2012
(All Photos by Lou Borghetti)

USA - Charleston, SC - Part II - Trabalho

Sketch/releitura de Vera C. M. Becker a partir da obra Lady and Gentleman in Black, Rembrandt

Alguém já disse: "Ninguém ensina ninguém a ser artista". Cada um traz consigo certa formação, claro, mas também e sempre uma intuição do que seja a arte e a expressão artística. Entendo que um workshop tem a função de quebrar padrões, propor novos meios e novas formas através de um primeiro contato com novas técnicas. É importante aí saber dosar a expectativa e concentrar-se no trabalho e nas atividades propostas, sem a preocupação com o resultado final, num curto espaço de tempo. Eu proponho novas formas e atitudes e, para tal, considero fundamental a disposição ou abertura para uma experiência sempre renovada do olhar sobre todas as coisas que existem ao nosso redor. É essencial aprender a tirar partido do que se encontra próximo e dentro de nós. A expressão, a forma, a comunicação, aperfeiçoadas em cada exercício/trabalho, apontam para as obras futuras. O objetivo de um workshop é provocar a expressão dos participantes. Que o traço seja, não necessariamente belo, mas expressivo! A instrução da técnica, dos meios, dos padrões, etc., é parte básica e pano de fundo presuposto. Porém, se a intuição que o aprendiz traz de si e da arte não for provocada a expressar, pouco se fez. A sensibilidade é necessária, mas a capacidade de expressão é o decisivo para um artista.




Slideshow, Workshop, Charleston SC USA 2012





Slideshow, Workshop, Charleston SC USA 2012 - Trabalhos





Slideshow, Workshop, Charleston SC USA 2012 - Releituras


Vídeo - Feedback de alguns participantes do grupo.